No contexto atual em que a moda busca cada vez mais sua essência e propósito, o Ginga Moda RN destacou um dos tópicos mais importantes da produção autoral no Brasil: a valorização do trabalho manual. O evento intitulado “Mãos que Transformam” contou com a participação de profissionais que apresentaram o processo criativo por trás da coleção Poti Fios e Linhas. Essa coleção é fruto de uma parceria entre o Sebrae-RN, o Instituto Riachuelo e a marca Catarina Mina, evidenciando como o artesanato pode desempenhar um papel fundamental na moda contemporânea.
A mesa foi moderada por Verônica Melo, que ocupa o cargo de gerente da Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae-RN. O debate contou com as contribuições da designer Celina Hissa, fundadora da Catarina Mina, da gerente do Instituto Riachuelo, Renata Fonseca, e da artesã Leonete Gorgônio, que representa a Casa do Artesão do Seridó.
O encontro não se limitou apenas à apresentação de uma nova coleção; foi uma reflexão sobre a importância simbólica e econômica do trabalho artesanal. As participantes enfatizaram que manter técnicas tradicionais vivas é crucial para fortalecer comunidades, apoiar o empreendedorismo feminino e criar uma moda que dialogue com suas raízes.
Renata Fonseca acredita que 2026 será um ano chave para a valorização do artesanato brasileiro. Ela mencionou que, ao longo dos últimos cinco anos, o Instituto Riachuelo tem colaborado com o Sebrae para integrar design, capacitação e oportunidades para as artesãs potiguares.
“Cada peça traz uma identidade singular, pois cada artesã imprime sua própria história. Nosso objetivo é tornar esse movimento algo duradouro. O Rio Grande do Norte possui uma riqueza artesanal incrível, e essa autenticidade é essencial para a moda”, ressaltou Renata.
Ainda segundo ela, essa colaboração já resultou em coleções disponíveis nacionalmente pela Riachuelo, aumentando a visibilidade das criações desenvolvidas no estado.
A gestora de artesanato do Sebrae-RN, Maésia Teodora, enfatizou que optar por peças artesanais também reflete uma escolha cultural.
“Quando escolhemos nossas roupas, estamos expressando quem somos e como vemos o mundo. O artesanato comunica sentimentos, histórias e modos de vida. A moda autoral no Rio Grande do Norte está crescendo exatamente porque reconhece essa ligação entre criação e identidade”, afirmou Maésia.
Ela acrescentou que o trabalho do Sebrae começa com a escuta das demandas de cada grupo, integrando design, gestão e fortalecimento dos negócios para garantir autonomia e sustentabilidade aos coletivos.
Celina Hissa, referência em projetos colaborativos entre design e comunidades artesanais, destacou que o artesanato ganha significado quando permanece vinculado ao seu território de origem.
“No Nordeste, precisamos estreitar laços, compartilhar experiências e entender as identidades locais de lugares como Caicó e Acari. Cada tipo de artesanato revela modos distintos de viver e nos ajuda a valorizar a cultura regional”, disse Celina.
A designer também destacou que o trabalho manual ensina uma nova relação com o tempo, contrastando com a rapidez da produção industrial.
“O artesanato nos lembra que existem diferentes ritmos. Aprender com essa temporalidade deveria ser parte da vida de todos nós. Refletir sobre processos colaborativos significa priorizar as pessoas em vez dos produtos e reconhecer que contar histórias faz parte da criação”, complementou ela.
Cela levantou ainda um dos principais desafios enfrentados pelo setor artesanal: a remuneração justa. Ela afirmou que algumas técnicas demandam um tempo considerável para serem executadas, mas nem sempre recebem reconhecimento financeiro adequado, levando muitos novos talentos a abandonarem essa profissão.
“O ecossistema artesanal precisa do suporte das políticas públicas, das universidades e do mercado. Não queremos ver desaparecer essa paixão pelo fazer manual”, alertou Celina.
No decorrer do debate, Verônica Melo observou que em um cenário onde a produção industrial se intensifica, o valor da manualidade se torna ainda mais evidente.
“O Brasil possui uma diversidade artesanal imensa e esse conhecimento deve ocupar um espaço cada vez maior no desenvolvimento de novos produtos”, acrescentou Verônica.
Representando as 17 artesãs envolvidas no projeto, Leonete Gorgônio compartilhou sua experiência transformadora proporcionada pela iniciativa. Crocheteira há seis anos, ela deixou seu antigo emprego em franquias para se dedicar integralmente ao artesanato.
“Esse projeto abriu portas que pareciam inalcançáveis. Para quem vive na zona rural, é uma chance de expor nosso trabalho a novos públicos e perceber seu verdadeiro valor”, relatou Leonete.
Pós-painel, os participantes puderam apreciar as criações resultantes do projeto durante um desfile que destacou a estética poderosa do artesanato potiguar. As peças apresentaram duas narrativas inspiradas no território seridoense.
As coleções são fruto da colaboração entre as artesãs da Acari Criativa e da Casa do Artesão do Seridó, demonstrando que tradição e inovação podem coexistir harmoniosamente. No Ginga Moda RN, o artesanato passou a ser reconhecido não apenas como uma referência estética mas também como patrimônio cultural, ferramenta de desenvolvimento econômico e expressão contemporânea da identidade nordestina.
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