Há filmes que se destacam pela grandiosidade do espetáculo, enquanto outros optam pelo silêncio como elemento narrativo poderoso. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, dirigido por Chloé Zhao, se encaixa claramente no segundo grupo. Inspirado no premiado romance de Maggie O’Farrell, o filme não busca contar a história de Shakespeare como um gênio absoluto, mas sim focar no que normalmente é deixado de fora das narrativas oficiais: a perda íntima, doméstica e irreparável que antecede a criação.
Zhao, vencedora do Oscar por Nomadland, reafirma sua habilidade em desenvolver um cinema contemplativo, orgânico e profundamente humano. Assim como em seus trabalhos anteriores, o tempo em Hamnet não é ditado pela ação, mas sim pela experiência emocional. Cada cena parece respirar junto com os personagens, em um ritmo que demanda entrega do espectador e recompensa com uma densidade afetiva.
Agnes no centro do mundo
Apesar de o nome de Shakespeare pairar sobre o filme como uma sombra inevitável, Hamnet não se trata, essencialmente, de um retrato do dramaturgo. Agnes é quem mantém o foco da narrativa. A atuação de Jessie Buckley é precisa e cativante, construída menos por diálogos e mais por gestos, silêncios e expressões. Sua Agnes não é uma musa idealizada ou uma esposa secundária, mas sim uma mulher marcada pelo luto, intuição e uma força quase ancestral.
Buckley, conhecida por suas performances intensas em filmes como Estou Pensando em Acabar com Tudo e Entre Mulheres, atinge um nível de maturidade interpretativa que justifica o destaque da produção na temporada de premiações atual. Seu corpo em cena traduz aquilo que as palavras não conseguem descrever: a dor que não pode ser expressa, apenas sentida.
Shakespeare à margem, o afeto em primeiro plano
Paul Mescal interpreta William Shakespeare de forma deliberadamente contida. Seu personagem observa, escuta, absorve fragmentos — frequentemente à margem do sofrimento que toma conta da família. Essa abordagem narrativa desloca o mito do gênio criativo para um lugar mais humano e, por vezes, impotente. A arte, nesse contexto, não surge da grandiosidade, mas sim da tentativa de dar significado ao indizível.
Não é coincidência que Zhao e O’Farrell construam a relação entre Hamnet e Hamlet de maneira sutil, sem enfatizar de forma didática. O filme confia na inteligência emocional do público e trata a obra mais famosa de Shakespeare como consequência, não como objetivo. O teatro surge como eco, não como espetáculo.
Um cinema de textura e memória
Esteticamente, Hamnet dialoga com a tradição do cinema de Terrence Malick e Jane Campion, especialmente pelo uso da iluminação natural, pela valorização da paisagem como expressão emocional e pela atenção ao corpo feminino como parte importante da narrativa. A direção de arte e os figurinos — discretos, orgânicos, quase táteis — constroem uma Inglaterra elisabetana que foge do clichê histórico e prioriza a sensação de vida cotidiana.
O filme se aproxima mais de uma literatura sensorial do que de um cinema narrativo convencional. Não há pressa, nem exageros dramáticos. Tudo acontece nos intervalos: entre o que foi dito e o que nunca será.
Luto, criação e permanência
Reconhecido com o prêmio do público no Festival de Toronto e exibido no encerramento do Festival do Rio, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet confirma o lugar de destaque de Chloé Zhao como uma das diretoras mais marcantes do cinema contemporâneo. Sua abordagem rejeita o épico e foca no essencial: como continuamos vivendo após algo se quebrar para sempre?
Dentro de um contexto como o Finíssimo, o filme expande diretamente para temas relevantes na moda, arte e cultura: identidade, memória, legado e a beleza que surge da imperfeição. Assim como uma criação autoral, Hamnet não procura agradar a todos, mas sim tocar profundamente aqueles que se permitem sentir.
Veredito
Hamnet é um filme que exige escuta, não impacto imediato. Uma obra delicada, madura e emocionalmente intensa, que transforma o luto em matéria-prima artística sem explorá-lo. Ao final, fica a sensação de que algumas das maiores criações humanas surgem não do triunfo, mas sim da ausência.
E talvez seja justamente por isso que este filme permanece.
