O bairro do Lago Sul, conhecido por suas mansões e sua alta renda per capita, foi palco de um evento marcante que quebrou paradigmas de poder e estética. No último sábado (21), a Casa Vento, um novo espaço de negócios e arquitetura localizado próximo ao centro comercial Gilberto Salomão, abriu suas portas para um evento que vai além da beleza superficial: o Desfile Beleza Negra (DBN).
O local, que abriga a nova Divino Galeria, antecipou sua inauguração ainda em fase de obras por um motivo especial e urgente. A escolha da data não foi aleatória; 21 de março é o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, estabelecido pela ONU em referência ao Massacre de Sharpeville, que ocorreu na África do Sul em 1960.
Da Periferia para o Epicentro do Luxo
Para Dai Schmidt, idealizadora do DBN, o evento representa uma conquista simbólica de território. Criado em 2012 como uma resposta à exclusão de modelos negros nas passarelas da época, o movimento agora ocupa um espaço de destaque no coração do Lago Sul.
“Estamos na região com a maior renda do Brasil. Hoje, este é o palco de um desfile com modelos negros vestindo roupas feitas na periferia, em frente a uma plateia de alta classe econômica. Essa conquista, 66 anos após a tragédia de Sharpeville, demonstra que nossa luta por direitos e oportunidades reais continua firme”, destaca Dai.
A curadora e proponente do projeto Dentro do Quadrado, Alva Pinheiro, ressalta a importância histórica do evento. Para ela, o objetivo é ampliar horizontes e abrir caminhos em circuitos muitas vezes inacessíveis.
Vozes de Resistência e Estilo
A passarela exibiu as criações de Toni Ponciano, do Ojo Ateliê, que trouxe uma coleção baseada na diáspora africana, afro-indígena e latina. Segundo o estilista, a inspiração surge do “bloqueio de acesso” enfrentado pela comunidade, transformando a exclusão em potência criativa e continuidade histórica.
O evento ainda contou com a presença da deputada distrital Dra. Jane Klebia, primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na CLDF. Madrinha da iniciativa, a parlamentar enfatizou que o desfile trata, acima de tudo, do direito de existir e de transitar.
“O que deve definir uma pessoa é a competência e o caráter, não a cor da pele. Esses jovens estão aqui para mostrar que podem ocupar o espaço que desejarem”, declarou a deputada.
Enquanto a Casa Vento finaliza os últimos detalhes de sua estrutura, a Divino Galeria já indica que não será apenas mais uma galeria de arquitetura. O espaço nasce com o compromisso de enfeitar suas paredes com atividades artísticas e sociais, unindo o luxo à responsabilidade cultural.
