Finalizar o primeiro dia de desfiles em um evento como o DFB é sempre um momento de grande importância. A expectativa que se cria em torno do último apresentador da noite é palpável: ele tem a responsabilidade de manter a energia na passarela e, muitas vezes, sintetizar a essência do festival. Em 2026, foi David Lee quem ocupou esse papel com sua coleção intitulada “Ofertório”, que se revelou mais como um exercício refinado de tradução cultural do que uma narrativa focada no sertão.
O nome da coleção evoca um gesto de entrega — algo que simbolicamente se oferece ao outro. Contudo, na passarela, David opta por uma abordagem diferente: ao invés de apresentar uma visão idealizada da regionalidade, ele compartilha fragmentos de memória que são reestruturados na linguagem da moda. O resultado se distancia do folclore literal, criando uma narrativa onde elementos como couro, crochê, bordados, padrões xadrez suaves, flores em relevo e silhuetas ampliadas não apenas servem como referências ilustrativas, mas constituem a própria narrativa.
A principal força de “Ofertório” reside na maneira como o artesanato deixa de ser meramente decorativo e passa a ter um papel central na composição. O crochê, tradicionalmente visto como detalhe ou ornamentação, aqui é utilizado como estrutura. Ele não aparece para suavizar as peças, mas sim para definir suas formas.
Esse conceito é evidente desde os primeiros looks da coleção. Em um conjunto leve de alfaiataria com camisa e bermuda em tons areia, a rigidez utilitária é quebrada por uma faixa tridimensional de crochê amarelo vibrante aplicada à cintura, quase como um espartilho moderno. O gesto é simples, mas poderoso: o que poderia ser apenas um detalhe torna-se o elemento central da silhueta.
Uma das apresentações mais marcantes do desfile é um minivestido estruturado em amarelo-ouro, totalmente confeccionado com uma trama densa de crochê em alto relevo. Essa peça não se limita a seguir os contornos do corpo; ela cria sua própria anatomia ao expandir-se em volume escultural e sugerindo uma alta-costura feita manualmente — não como uma nostalgia artesanal, mas sim como uma expressão estética contemporânea.
A mesma lógica permeia as peças masculinas da coleção. Regatas vazadas transformadas em estruturas florais tridimensionais funcionam quase como armaduras têxteis, expostas sem perder a densidade visual. A figura masculina transita entre fragilidade e robustez, transparência e peso — um contraste raro nas coleções que costumam abordar imaginários regionais frequentemente marcados pela masculinidade tradicional.
Um dos aspectos mais inteligentes da coleção de David Lee é a forma como ele reinterpreta códigos culturais familiares sem reduzi-los à caricatura.
O gibão do vaqueiro — uma referência inescapável do sertão nordestino — não é apresentado de forma literal. Em vez disso, ele é desconstruído em curvas e recortes sutis. Em algumas ocasiões aparece como um peitoral minimalista; em outras, ressurge na marchetaria do couro ou nas linhas fluidas dos vestidos estruturados. A referência permanece clara, mas ganha nova linguagem.
O uso do couro também representa uma transformação significativa nesta coleção. Comumente associado ao peso ou à rusticidade, aqui ele se torna material para refinar visualmente as peças. Minivestidos feitos em patchwork de couro bovino combinam tons de conhaque, preto e amarelo-mostarda, intercalados com arabescos decorativos e perfurações que evocam o saber-fazer regional sem cair no anacronismo.
A colaboração com o artesão André Cardoso, oriundo do Cariri, enriquece a compreensão dessa dimensão material presente no desfile. O couro não é apenas uma citação superficial dos vaqueiros; ele carrega marcas culturais e técnicas que foram reposicionadas dentro de um guarda-roupa contemporâneo desejável.
Outro ponto forte da coleção é a forma como o xadrez é utilizado. Tradicionalmente ligado às festividades juninas, aqui ele aparece filtrado através de micro padronagens delicadas e grids sutis. Em vez do impacto direto das festas de São João, David opta por evocar memórias difusas dessas imagens — algo reconhecível sem ser imediatamente perceptível.
Peculiaridades como vestidos balonês e saias franzidas reforçam essa sensação temporal deslocada. Há um aspecto caseiro nos volumes apresentados — parece que panos bordados e colchas patchwork foram silenciosamente transportados para a passarela e encontraram novos espaços para pertencer.
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