No evento GINGA Moda RN, realizado em Natal, a moda adquiriu novas interpretações. A coleção Revoada, revelada em 28 de julho, foi elaborada por um grupo de 15 homens que estão cumprindo pena na Penitenciária Estadual Dr. Francisco Nogueira Fernandes, também conhecida como Alcaçuz. Mais do que uma simples exibição de mais de dez looks, a apresentação demonstrou um processo colaborativo de criação que utilizou a moda como veículo de expressão e transformação pessoal.
A coleção faz parte do Projeto Tecendo Liberdades, uma parceria entre o SENAI Moda RN e a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária do Rio Grande do Norte (SEAP/RN). Esta iniciativa foi inspirada na pesquisa de doutorado da designer e professora do SENAI Moda RN, Jéssica Cerejeira, que se dedicou ao estudo dos processos criativos no ambiente prisional.
Durante os meses de trabalho, os participantes se reuniram semanalmente para explorar novas possibilidades, trocar referências e transformar conhecimentos pessoais em uma criação coletiva. A proposta inicial surgiu da reflexão sobre: o que significa vestir a liberdade?
A resposta a essa questão se manifestou através de tecidos, bordados, crochês, macramês e intervenções têxteis, além de poesias. Em vez de simplesmente reproduzir peças já desenhadas, os integrantes participaram ativamente em todas as fases do processo — desde a pesquisa até a costura e finalização das roupas.
“Não fazia sentido criar designs apenas para que eles os costurassem. A coleção precisava emergir das vivências, habilidades e escolhas dos participantes. Todo o trabalho foi elaborado em conjunto”, destaca Jéssica Cerejeira.
Conexões entre literatura, teatro e moda
O conceito por trás de Revoada também se enriqueceu através da interação com outras formas artísticas. Uma das influências significativas foi o espetáculo Revoada, encenado pelo Grupo Arkhétypos de Teatro e atualmente remontado na Penitenciária de Alcaçuz sob a supervisão dos professores doutores Robson Haderchpek e Sebastião Sales, da UFRN.
A peça é baseada em A Conferência dos Pássaros, um poema do persa Farid ud-Din Attar que aborda questões como liberdade e identidade. O livro foi levado aos detentos envolvidos no projeto de moda e continuou a ser lido nas celas à noite, gerando discussões, memórias e novas inspirações artísticas. Essa fusão entre literatura, teatro e moda deu origem à coleção.
Dessa forma, a simbologia dos pássaros e do voo não serve apenas como elemento estético; ela simboliza um processo transformador. O conceito de liberdade torna-se algo tangível por meio da criação e da imaginação de novos horizontes.
Da sobra industrial à peça autoral
Um aspecto crucial da coleção é a escolha dos materiais utilizados. As matérias-primas foram doadas por fábricas têxteis do estado potiguar, predominantemente na forma de retalhos e excedentes industriais.
Tecidos com diversas cores, texturas e composições foram rearranjados pelos participantes como um quebra-cabeça criativo. O que poderia ser considerado desperdício transformou-se em material para uma coleção única.
A iniciativa recebeu apoio das empresas Vicunha, Uniformize, Bonor Botões, Santana Têxteis e Casa do Zíper, que forneceram insumos essenciais e promoveram uma maior conexão entre os setores industrial, educacional e o sistema prisional.
Muito além de uma abordagem sustentável no uso dos materiais, essa escolha dialoga diretamente com os objetivos do projeto ao reconfigurar o que foi descartado em algo novo carregado de significado.
A moda como expectativa futura
O impacto gerado pelo projeto Tecendo Liberdades vai além das técnicas tradicionais da costura. Durante todo o processo criativo, os envolvidos puderam identificar suas habilidades, participar ativamente nas decisões artísticas e enxergar seu trabalho exposto em um contexto profissional na área da moda.
Um dos participantes, João Batista, expressou essa evolução ao dizer:
“Minhas mãos agora produzem felicidade para muitos — crochê, artesanato e brinquedos para crianças.”
A declaração reflete uma mudança significativa trazida pelo projeto; mãos antes consideradas improdutivas agora são vistas como instrumentos criadores com potencial para gerar valor.
A coleção Revoada foi apresentada no dia 28 de julho no Praiamar Arena durante o GINGA Moda RN – primeiro showroom dedicado à moda potiguar.
